Às vezes, na medula atormentada
Do meu cérebro aflito e taciturno,
Interrogo o Mistério alto e soturno
Da existência fatal, desagregada...
Por que a família, em marcha desvairada,
Se espalha pelo espaço, em giro noturno?
Uns perto do meu sangue e do meu turno,
Outros longe, na ausência envenenada...
Tenho parentes mil, na pátria inteira,
Fragmentos de um plasma hereditário,
Errando pela estrada brasileira...
Uns vejo ao sol do afeto cotidiano,
Outros jamais tocaram meu calvário,
Nem viram meu esqueleto humano...
Duas tias possuo - e que tortura
Saber que habitam léguas de distância!
Na alma deixam úmida fragrância
Misturada ao ácido da amargura...
Uma em Manaus, sob a floresta escura,
Outra em Palmas, em erma constância;
Vivem nutrindo a antiga extravagância
De retornar à origem mais segura...
Digení, flor nervosa do Amazonas,
Direní, sombra triste do cerrado,
Ambas perguntam por minhas zonas...
E dizem: "Damaci é belo e generoso!"
Ah! Como o elogio, em plasma entranhado,
Faz meu ego vibrar, tumultuoso!
Mas há outra tia, figura singular,
Batizada nas pias por Maria,
Porém Diraci — na prática sombria -
É o nome que aprendi a pronunciar...
Toda vez que me encontra, em singular
Vocação para a crítica bravia,
Faz-me tossir na traqueia mais vazia,
Como um pulmão cansado de expirar...
Enquanto as outras julgam-me formoso,
Ela, cruel anatomista humana,
Acha-me um ser terrível e nervoso...
E eu, que em todos cultivo estima franca,
Guardo esse amor que a própria dor irmana
Na substância moral que em mim estanca...
Assim caminha a vida transitória:
Uns aqui, outros além da sepultura...
Tudo muda na orgânica estrutura
Da carne efêmera e da vã memória...
Porque o Tempo — esse verme da matéria -
Há de engolir, num ápice profundo,
Os laços, os afetos e este mundo,
Na química final da própria miséria...
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